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João Marcondes de Moura Romeiro, filho de José Romeiro de Oliveira, Sargento-Mor da Guarda de Honra de D. Pedro I e de dona Ana Marcondes de Moura Romeiro, nasceu em Pindamonhangaba, aos 26 de maio de 1842 e faleceu em 8 de julho de 1915.

Filho de político militante e membro de influente do Partido Liberal, nasceu sob o signo da Revolução Liberal de 1842. Revolução que embora vencida iria mais tarde ver triunfar seus ideais de progresso, justiça e liberdade. Quando João Romeiro nasceu não fazia ainda um mês que os liberais tinham iniciado o movimento revolucionário e aclamado Rafael Tobias de Aguiar como presidente dos paulistas.

Fez os estudos primários em sua cidade natal e os preparatórios, correspondente ao atual 2º grau, em Baependi-MG. Nessa época, São Paulo não obstante fosse a capital da Província, era uma cidade com população ao redor de 35 mil habitantes. Vivia em função de sua Academia e dos estudantes naturais da própria cidade, mas principalmente, daqueles que precediam das localidades do interior e das outras províncias. Em particular de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul.
Advogado

Após sua formatura (27/11/1865) retornou a Pindamonhangaba e iniciou-se na advocacia. Advogado culto e preparado granjeou a confiança de seus conterrâneos. Apoiado na Ciência Jurídica da qual era grande estudioso, sabia defender suas causas com o vigor o seu talento. A elas dedicava-se de modo integral e com todo o ardor. Atendia com o mesmo interesse pobres e ricos, independentemente dos honorários que pudesse receber.
Jornalista e político

Após vários anos deixou sua atividade de advogado para devotar-se ao jornalismo e à política. Continuou, porém, aplicado ao estudo do direito, tornando-se mais tarde juiz e jurisconsulto.

João Romeiro ao fundar a Tribuna do Norte, aos 11 de junho de 1882, entregou, por motivos particulares, sua administração a seu primo João Fernando de Moura Rangel e, ao mesmo tempo, o encarregou de comprar a máquina impressora, no Rio de Janeiro.

João Romeiro não era um jovem inexperiente, exercera por muitos anos advocacia em Pindamonhangaba, possuía a vivência do “tribuno”, do polemizador e crítico, adestrado nas lutas parlamentares das legislaturas de 1878-1879 e 1880-1881, quando exerceu o mandato de deputado provincial de São Paulo.

Na realidade, desde que se formou em direito e voltou para sua Pindamonhangaba, passou a militar na política. Na Monarquia pertenceu ao Partido Liberal e na República, ao Partido Republicano Paulista.
Verifica-se ainda, que João Romeiro ao fundar a Tribuna do Norte era um homem maduro intelectualmente. Tinha amplos conhecimentos dos problemas políticos e administrativos de Pindamonhangaba, assim como, de todo o Brasil.

Naturalmente, desejava um periódico para defender aspirações de progresso, liberdade e justiça dos pindamonhangabenses. Ao mesmo tempo, queria um veículo para exercer a crítica às idéias contrárias aos seus princípios.

Das lutas que sustentou na Tribuna do Norte, devem ser registradas aquelas que tiveram maior repercussão. Foram as que se integraram na história de Pindamonhangaba. Seguindo a ordem cronológica: a Abolição da Escravatura, a Adesão à República, a Instalação de Água Encanada, a Construção do Prédio do Grupo Escolar Dr. Alfredo Pujol”, a Instalação do “Haras Paulista”, a Construção da Estrada de Ferro Campos do Jordão e a Fundação da Escola de Farmácia e Odontologia.
O Juiz de Direito e Jurisconsulto

João Romeiro entrou para a magistratura após longa vivência como advogado. Foi o primeiro Juiz de Direito de São Bento do Sapucaí, tendo sido nomeado em 1890. A ele coube instalar o Poder Judiciário na nova Comarca.

Desde o início de sua carreira, procurou aproximar-se de todos os segmentos da sociedade. Desejava, que seus jurisdicionados soubessem o que representava um Tribunal de Justiça e, principalmente, a Instituição do Júri. Nesse sentido, após estabelecer a lista de jurados, costumava convocá-los para explicar-lhe a importante função que cabia ao Conselho de Sentença. Publicou um livro, “O Juri” onde descreve, de modo acessível aos leigos seus fundamentos, seu funcionamento e o papel de seus membros.

Salientou, que estes têm uma atuação do mais alto significado, pois são juizes de fato. Por esse motivo devem ser escolhidos entre os cidadãos da mais elevada reputação, e de maior respeito da comunidade.
Sua preocupação máxima era fazer a verdadeira justiça. A simples possibilidade de uma injustiça. mesmo que involuntária e por mais leve que fosse, o atormentava.

Exerceu o cargo de juiz de direito por poucos anos, pois com a reforma do Poder udiciário do Estado, foi posto em disponibilidade, voltando a advogar e aos estudos.

De suas publicações, merece menção especial o “Dicionário de Direito Penal”. Trata-se de livro de 342 páginas, tendo como apêndice mais 83, onde transcreve o Código Penal. Foi publicado em 1905, e editado pela Imprensa Nacional.
O cidadão e chefe de família

Um cidadão lúcido e dinâmico, imperturbável entre o temor que envilece e a intrepidez que não titubeia. O cidadão no qual todos seus atos são regulados pelos seus princípios de honradez, de hombridade, de justiça, e de amor à verdade. O cidadão que preza e sabe cultuar amizade, considerando-a como um dos sentimentos mais nobres do homem. O cidadão que sabe amar a Deus com todo o fervor da fé, e o próximo com toda pureza do coração.

Nos últimos anos de sua vida pouco saía de casa. Permanecia em seu escritório, lendo ou escrevendo. Essas atividades eram interrompidas apenas, para atender os amigos. Estes o procuravam para resolver todos os problemas. Fosse familiares, de negócios, de política ou das mais diversas disputas. Era o conselheiro amigo, seguro e respeitado, que se esforçava para solucionar as questões apresentadas. As resolvia, quase sempre, recorrendo ao entendimento entre as partes e ao seu alto espírito de justiça.

João Romeiro casou-se com sua sobrinha, dona Ana Francisca Marcondes de Moura Romeiro. Como chefe de família revelou as mais acendradas virtudes. Foi o marido dedicado e extremoso. Um enamorado de sua esposa que lhe deu 14 filhos.

Ficou viúvo ainda muito moço, e desde esse momento, devotou-se inteiramente aos filhos, quase todos menores. Procurava suprir a falta da mãe, sempre tão carinhosa, tratando-os com o desvelo, a bondade e o amor que transbordavam de seu coração. Desse modo e com seu exemplo, os educou para os combates da vida.

Teve a felicidade de ter ao seu lado, em Pindamonhangaba, muitos dos filhos já casados. Fazia questão, porem de reunir todos os seus descendentes, pelo menos uma vez por ano. Quase sempre era em sua fazenda, a Mombaça, no dia de São João. Num clima de muita alegria e festa.
O historiador

Como historiador, João Romeiro escreveu “De D. João VI à Independência” e “os Campos do Jordão na História e na Legenda”. O primeiro é um livro de 254 páginas no qual analisa os fatos ocorridos no Brasil, desde a partida do rei para Portugal até a proclamação da nossa Independência.

Não é, porém, um simples relato de fatos. Mas, sim, um estudo aprofundado desse período que vai de 26 de abril de 1821 a 7 setembro de 1882.
O poeta

João Romeiro, com sua cultura polimorfa e seu espírito rigoroso de historiador e jurisconsulto, não perdeu sua emotividade espontânea, sua ternura comunicativa e nem sua sensibilidade lírica. Não podia, pois deixar de ser poeta ou jurista-poeta, como apresenta Aldemar Tavares na revista “seleta” de 15 de setembro de 1915.
Entre os seus versos salientam-se letra do “Hino de Pindamonhangaba”, “Saudade”, “A Função”, onde descreve uma festa de São João e “Já Morreu”, que é a história de um móvel familiar, guardado religiosamente, como evocação de pessoas queridas. Sua sensibilidade e ternura podem ser bem avaliadas nos versos de “Já Morreu”:
JÁ MORREU

Tenho no quarto em que durmo
E bem junto ao leito meu,
Uma mesa que está sempre
A me dizer: Já morreu.

Noite e dia, toda hora
Nunca de mim se esqueceu
Na sua triste mudez,
Só a dizer: Já morreu.

O marceneiro que a fez,
Muito bem, lembro-me eu,
Um antigo conhecido,
Nosso amigo: Já morreu.

Pela obra executada
Boa paga mereceu,
Quem lhe havia encomendado
Foi meu irmão: Já morreu.

Queria para presente
E um primo lhe apareceu:
Mandou, sinal de lembrança
À nossa mãe: já morreu.

A uma santa criatura
Finalmente pertenceu,
as roupas das criancinhas
Cosia ali: Já morreu.

Deixem ficar esta mesa
Lá, bem junto ao leito meu,
Até que um dia, de mim,
Também diga: Já morreu…

João Romeiro não morreu! Homens como ele vivem perpetuamente pelas obras que realizaram. Graças aos seus livros e à Tribuna do Norte, João Romeiro está sempre vivo nas gerações que se sucedem. De fato, não é sem razão que em Pindamonhangaba, dr. João Romeiro é nome de rua, de Colégio Comercial e da Fundação Municipal que mantém a TRIBUNA DO NORTE.

(Extraído da conferência pronunciada pelo neto de João Romeiro, dr. Mateus Marcondes Romeiro Neto, por ocasião do Centenário da Tribuna do Norte, 11 de junho de 1982(Conferência realizada na Câmara de Pindamonhangaba).